Gestão de conflitos e inovação

Gestão de Conflitos e Inovação

Fabrizia Rossetti

Os conflitos estão sempre entre nós e a habilidade de negociação é uma das mais requeridas hoje. Alguns fogem do conflito e outros parecem incentivar ou piorar os conflitos. Mas, e se tentássemos usar os conflitos a nosso favor, como uma ferramenta de geração de ideias, de criatividade e ampliação da visão?

Esse é um dos conceitos que nós da SK gostamos de aplicar, com atividades vivenciais ao vivo, em nossas ações de aprendizagem sobre Gestão de Conflitos e Negociação. Mais do que aprender técnicas de como negociar, podemos mudar toda nossa atitude perante o que é contraditório para nós, usando a abordagem da Análise Transacional, da Teoria dos Grupos e da Andragogia.

Os recentes acontecimentos trouxeram a todos – empresas e indivíduos – a necessidade de reconfigurar as duas mais importantes dimensões que definem a vida: o espaço e o tempo. Essa reconfiguração tem sido fonte de inúmeros conflitos do dia a dia e exigem das pessoas capacidade de gestão dos impasses e negociação das relações.

Quando bem gerenciados os conflitos podem ser fonte de grande aprendizado e crescimento pessoal e profissional para todos. Porém, quando apenas deixados de lado, os conflitos podem crescer ou se tornar uma parte mais incômoda da “não-solução” dos problemas.

Contrato – uma vacina para os conflitos

A ferramenta Contrato das Relações é simples e poderosa para mediar grande parte dos conflitos vivenciados. Sua origem teórica está na Andragogia e na Análise Transacional. A ideia principal é fazer um alinhamento das expectativas explícito entre as partes que iniciam qualquer tipo de relação. Aqui vamos dar foco nas relações de trabalho e de aprendizagem, mas essa ferramenta serve para a vida.

É no Contrato que perguntamos ao outro o que ele espera dessa relação e que contrapartidas ele pode dar para conseguir o que deseja obter da relação. Depois de ditas e alinhadas essas expectativas, é realizado o Contrato propriamente dito, onde as parte se comprometem a fazer e não fazer determinadas coisas de comum acordo.

Nos cursos para novos gestores, sempre enfatizamos essa como a primeira ação de um gestor com um novo membro da equipe. Imagine quantos conflitos podem ser evitados, simplesmente por ser propor esses passos simples: uma conversa inicial de alinhamento e combinados do que será permitido e do que se espera naquela relação.

Vale dizer que os contratos não nem devem imutáveis e podem ser recontratados, de maneira a lidar com os conflitos e mudanças que sempre surgem de uma forma adulta, ou como dizemos na Análise Transacional com o “Estado de Ego Adulto energizado”.

Comumente encontramos na consultoria relatos de situações que por vezes se arrastam há anos de gestores insatisfeitos com suas equipes ou ainda de pessoas insatisfeitas com suas carreiras e também de professores e facilitadores esgotados com o desengajamento de seus alunos. Para toda essas situações de conflito, a primeira pergunta e recomendação que fornecemos é: vamos revisitar o Contrato da Relação?

Mesmo que as pessoas digam que não fizeram esse Contrato no início das relações, afirmamos que o ele foi feito, porém de modo não explícito e por isso os conflitos surgem com tanta força. A estratégia é do Contrato para mediar conflitos é torná-lo explícito, claro para todos os envolvidos.

Os conflitos podem ser úteis?

O conceito de Diverse Thinking (Pensamento Diverso) expresso por Matthew Syed em seu livro “Ideias Rebeldes – a diversidade de pensamento transformando mentes” apresenta uma estratégia para lidar com conflitos muito interessante e diferente. A proposta é abraçar ideias diferentes, diversas e muitas vezes contrárias às nossas, como modo de ir adiante nos desafios.

O Pensamento Diverso instiga a trazer para o debate das nossas ideias aqueles que são diferentes de nós em idade, raça, gênero, religião, classe social, sexo, visão política, estilo de pensamento e aprendizagem. A diversidade cognitiva se contrapõe à homogeneidade dos times e é um atalho para ideias melhores e resultados mais promissores para equipes que atravessam situações de conflitos tanto internos quanto externos.

A professora de Harvard, Linda Hill também expressa ideia semelhante ao afirmar que o papel dos líderes não é “criar uma visão e inspirar as pessoas”, mas sim promover um ambiente inclusivo e diverso no qual os conflitos possam emergir. A partir das ideias diferentes e contrárias é que a inovação será criada.

Linda Hill relata inúmeras experiências vivenciadas por ela com esse conceito nos estúdios Pixar, por exemplo. Ela afirma ainda que a inovação raramente acontece sem conflito e diversidade. A inovação requer um paciente e inclusivo processo, no qual as pessoas se sintam à vontade para expressar ideias, mesmo que sejam mutuamente contraditórias. Nesse processo, não raro, o líder não sabe a direção, e não tem nenhum problema nisso!

Dessa forma, podemos ver que os conflitos podem ser até desejáveis numa equipe e numa organização. É possível inferir que um local de trabalho sem conflitos, provavelmente também será um local sem novidades e fadado à realizações de rotina, tão somente.

Isso não quer dizer que “brigar no trabalho é bom”. Muito pelo contrário, a capacidade de usar os conflitos com elegância e criatividade é uma das habilidades requeridas das pessoas hoje, sobretudo dos gestores. O contínuo trabalho de auto conhecimento e cultivo das habilidades humanas é mais necessário do que nunca para viver os conflitos de forma proveitosa.

HILL, Linda et al. Collective Genius: The Art and Practice of Leading Innovation. Harvard Business School Press, 2014.

SYED, Matthew. Ideias Rebeldes – a diversidade de pensamento transformando mentes. Alta Life, 2021.

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