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Quatro pilares e a teoria da Análise Transacional

junho 9, 2014 by Artigos No Comments

Quatro pilares e a teoria da Análise Transacional: Uma proposta pedagógica aplicável na educação para o século XXI[1]

Carmem Maria Sant’Anna Rossetti[2]

Resumo

O presente trabalho examina a proposta de uma educação desenvolvida em torno das indicações do relatório UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) visando levar o aluno a aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a ser e aprender a conviver, que significa construir conhecimento de forma integrada, e que prevê a ampliação da visão do ser humano sobre si mesmo, descobrindo e desenvolvendo novas potencialidades, exercitando os hemisférios cerebrais na unificação do raciocínio com a intuição. Porém, construir conhecimentos e desenvolver potencialidades ainda não bastam para termos pessoas melhores e, por consequência, um mundo melhor. Procedimentos baseados somente nestes dois aspectos podem ainda gerar “genialidades” voltadas para a destruição. Impõe-se a necessidade de buscar formas alternativas para incrementar os resultados no processo educativo. Para isso, pretende-se apresentar a contribuição da Análise Transacional como um recurso possível para sustentar nossa ação educacional em valores humanos básicos e universais. A Análise Transacional (AT) é uma teoria da personalidade com uma abordagem visando o crescimento e a mudança pessoal. A familiarização com essa teoria, agregada aos princípios preconizados pelos Quatro Pilares de Delors (2000), contribui para um “fazer” em sala de aula que promove comunicação efetiva e autonomia entre educador e educando. Também é fornecido um quadro comparativo de tópicos das abordagens tradicional e contemporânea da educação com os correspondentes Quatro Pilares e a inclusão de comentários sobre a Análise Transacional como recurso pedagógico.

Palavras-chave: Co-responsabilidade. Inovação. Autonomia. Processos grupais. Atitudes. Valores.

INTRODUÇÃO

O momento atual pode ser caracterizado pela conexão de todo o sistema mundial. Ligada a esta macro tendência, existe outra intraorganizacional – o modelo taylorista-fordista que marcou a organização do trabalho ao longo do século XX está sendo integrado com outros sistemas flexíveis e adaptados às instáveis condições ambientais. Nesse contexto, o papel do educador ganha contornos distintos dos que o caracterizaram no passado. Há cada vez mais necessidade de novas atitudes e valores. Essa nova postura exige maior compreensão dos processos grupais e suas implicações quanto à tarefa e às relações socioemocionais. Há na necessidade de desenvolvimento de habilidades cognitivas, flexibilidade de raciocínio, resolução de problemas, tomada de decisões, etc.

Nestes termos, tomam-se as metodologias participativas de ensino/aprendizagem como uma forma de ampliar o compromisso com a promoção de valores éticos, de responsabilidade social e ambiental na educação. Estas metodologias desenvolvem a capacidade de reflexão autônoma e seu potencial para encontrar soluções criativas na área de atuação profissional e na vida pessoal e social. Dessa forma, preparam pessoas para atuarem de modo efetivo e consciente na construção de um novo tempo e de um novo ser humano, integrado consigo mesmo e com os outros, com capacidade de educar, aprender e dar soluções nas várias situações da vida. As metodologias participativas propiciam o desenvolvimento e a integração das diversas dimensões do ser humano.

Na dimensão Conhecer: torna realidade a aprendizagem significativa; aprimoram a capacidade de processamento, ordenação e elaboração da informação; desenvolvem as habilidades de comunicação; desenvolvem a capacidade crítica. Na dimensão Fazer: facilitam a passagem da idéia para a ação; desenvolvem o hábito de prever futuros possíveis; propiciam aprender com a própria experiência; desenvolvem a autodisciplina na execução das tarefas. Na dimensão Conviver: favorecem a comunicação intergrupal e o trabalho em equipe; desenvolvem atitudes de respeito ao posicionamento dos demais; desenvolvem o sentimento de pertencer a um grupo; desenvolvem atitudes de colaboração, convivência, solidariedade, justiça e democracia. Na dimensão Ser: favorecem a compreensão da integridade do ser; propiciam o sentimento de autoestima e de realização; potencializam a flexibilidade, a fluidez, a originalidade, a espontaneidade e a sensibilidade – condições essenciais para o pensamento criativo; potencializam a manifestação e os posicionamentos próprios. (SEBRAE, 2001, p. 53-55).

A CONTRIBUIÇÃO DA ANÁLISE TRANSACIONAL

Com esses aspectos sobre as metodologias participativas em mente, passemos a introduzir a discussão sobre o referencial teórico da Análise Transacional e sua contribuição como complemento de uma proposta pedagógica aplicável na Educação para o Século XXI.

A Análise Transacional (AT) é uma teoria da personalidade, criada pelo Dr. Eric Berne no final da década de 50. É também uma filosofia de vida, uma teoria da psicologia individual e social. Possui um conjunto de estratégias de mudança positiva que possibilita uma tomada de posição quanto ao ser humano.

A AT tem como objetivo levar o indivíduo a alcançar a Autonomia de Vida. Entende-se por um ser autônomo neste trabalho:

Governar a si mesmo, determinar seu próprio destino, assumir responsabilidades pelas suas ações e sentimentos, e desfazer-se dos padrões, que são irrelevantes e inadequados, para viver no aqui-e-agora. […] A pessoa verdadeiramente autônoma, de acordo com Berne, é a que demonstra ‘a liberação ou o recobro de três capacidades: consciência, espontaneidade e intimidade’. Consciência é o conhecimento do que está acontecendo agora […] Espontaneidade é a liberdade de escolher. […] Vê as várias opções a sua disposição e usa o comportamento que julga ser apropriado a essa situação e aos fins a que se propõe.[…] Intimidade é a expressão dos sentimentos de calor, afeto e proximidade […] em relação ao outro. (JAMES, JONGWARD. 1983, p. 263-266, grifo nosso)

Essas três capacidades são inatas no ser humano; entretanto, algumas vezes elas podem ser limitadas por situações estressantes ou traumáticas sofridas na infância, mas podem ser recuperadas via educação.

Além de ter-se ocupado primordialmente com o que ocorre entre os indivíduos, Berne contribuiu ainda com um modelo de estudo do que ocorre no interior do indivíduo. Ele dizia que todos nós nascemos príncipes e princesas, mas às vezes nossa infância nos transforma em sapos acomodados. (STEINER,1976, p.15)

A AT é uma filosofia positiva e de confiança no ser humano: todos nós nascemos bem, com capacidade plena para obter sucesso e satisfação de nossas necessidades e as de nossos semelhantes. Esse objetivo coincide com os pressupostos da Educação, conforme o relatório da UNESCO para o Século XXI (DELORS, 2000, p. 99-102) quando trata do pilar “Aprender a ser” e também de acordo com o pensar de Freire (1996, p. 66): “O respeito à autonomia e à dignidade de cada um é um imperativo ético e não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros”.

Eric Berne enfatizou a importância de pensar de forma profunda, de ouvir os outros e falar de maneira acessível. O termo transacional deveu-se ao interesse que Berne tinha pelo que ocorria entre as pessoas. Daí o estudo, a análise, as trocas de estímulos e as respostas (transações) entre os indivíduos. Sua contribuição inclui também outros conceitos, dentre eles, contrato e liderança, que são úteis para os educadores.

A AT, em sua quase totalidade, pode ser representada mediante gráficos simples, tais como círculos, triângulos, vetores, quadrados, etc., permitindo assim o aprendizado de conceitos abstratos mediante o canal visual.

A teoria da AT está estruturada em diversos instrumentos, que, aliados aos sinais de comportamentos observáveis e da intuição do professor, permitem diagnosticar, com alta probabilidade de acerto, o que está ocorrendo no aqui-e-agora dentro da sala de aula. Esta observação pode elevar a habilidade deste educador de compreender o sistema do grupo e propiciar um modelo sinérgico para ajudar o aluno a empoderar tanto a si mesmo quanto a seus colegas a se permitirem[3] aprender.

Sendo assim, uma proposta pedagógica construída em torno desses fundamentos e princípios poderá contribuir com boa parcela de êxito. O educador, ao se apropriar desse referencial teórico, terá à sua disposição um ferramental prático que o ajudará a promover ainda mais uma educação que liberta pelo saber. Somada ao estímulo para um pensar e agir cooperativamente pode acelerar a construção de indivíduos que tem maior probabilidade de criar organizações eficazes, que assegurem vida digna a seus integrantes e à comunidade que os cerca.

Vejamos agora descrições sucintas de alguns recursos disponíveis em AT. As referidas abordagens apresentam uma riqueza de possibilidades de trabalho que podem ser aplicadas na educação, e são de simples compreensão.

Estados de Ego: São sub-sistemas coerentes de sentimentos e pensamentos manifestados por padrões de comportamentos correspondentes. Cada ser humano apresente três tipos de ego. Pai, Adulto,Criança. Ë a unidade básica da personalidade. (BERNE, 1988, p.25). Conforme entendido pela teoria de AT, é assim que a nossa personalidade é formada. É a nossa estrutura interna. Portanto, trata-se do relacionamento intrapessoal.

Transações: Unidades de ação social, que envolvem um estímulo e uma resposta. É como nos comunicamos uns com os outros. Trata-se, por conseguinte, do relacionamento interpessoal. (BERNE, 1988, p.32)

Estruturação social do tempo: o ser humano, desde o seu nascimento até a sua morte, tem a necessidade de preencher esse vazio que existe em sua vida: o tempo. Existem diversas maneiras pelas quais o ser humano estrutura o seu tempo. (BERNE, 1988, p.33-36) e (KRAUSZ, 1999, p.107-112)

Reconhecimento ou Carícias (stroke)[4]: constitui uma das fomes básicas do ser humano. A partir do conceito de Toques ou Carícias podemos entender porque determinados alunos, por exemplo, estão sempre se envolvendo em situações desagradáveis e difíceis. Por tratar-se de uma fome básica do ser humano, todos nós necessitamos de Carícias/Reconhecimento (stroke). A questão tem que ver com o modo como elas são buscadas em nosso dia-a-dia, e particularmente na sala de aula, e é preciso entender o papel do professor diante dessa realidade. Este conhecimento o habilita a não reforçar toques negativos. (KRAUSZ, 1999, p. 67-77)

Posição existencial: é a forma como percebemos a nós mesmos em relação às outras pessoas. São juízos de valor ou conceitos a respeito de si próprio e dos demais, adquiridos na infância através da tomada de decisões muitas vezes inadequadas, baseadas nas condições precárias da criança para raciocinar e pensar objetivamente diante da realidade. É a janela através da qual vemos a nós mesmos e os demais que estão à nossa volta. É uma posição de vida que tomamos em nossa infância, que foi importante para a nossa sobrevivência naquela época e na realidade em que vivíamos. Hoje, é possível que a nossa realidade seja completamente diferente daquela – entretanto, muitas vezes tanto o aluno como o professor continuam a ver o mundo através daquela mesma janela. Existem quatro Posições Existenciais básicas, organizando-as na seqüência descrita a seguir: (1) Eu estou OK ou (2) Eu não estou OK (3) Você está OK ou (4) Você não está OK. (BERNE,1988, p. 81-83).

Jogos psicológicos: é uma maneira negativa de o ser humano estruturar o seu tempo. Os Jogos Psicológicos são constituídos por uma série de lances com uma isca no meio, e um final previsível. (BERNE, 1995, p. 49).

A partir do entendimento do conceito dos Jogos Psicológicos, o indivíduo é convidado a dar-se conta de quanto tempo está perdendo de sua vida, praticando-os. Por que jogamos? Como o professor/facilitador deve agir para não aceitar convites para Jogos Psicológicos em sala de aula? A teoria e a prática da Análise Transacional responde a essas questões.

O aparato conceitual da AT não se resume a esses recursos, citados como exemplo. Berne desenvolveu um corpo teórico amplo e profundo, maximizando a compreensão da personalidade, das interações sociais, do comportamento humano e da aplicação de técnicas que poderão ser aplicadas nos processos educacionais.

INTEGRAÇÃO DOS PARADIGMAS CONTEMPORÂNEOS DA EDUCAÇÃO COM OS PILARES DA EDUCAÇÃO PARA O SÉCULO XXI E ABORDAGENS DA ANÁLISE TRANSACIONAL

Apresentamos a seguir um quadro comparativo de alguns itens das abordagens contemporâneas da educação com os Quatro Pilares da Educação, preconizados por Jacques Delors no Relatório para a UNESCO, e as possibilidades de manuseio de alguns conceitos da AT.

O exame do referido quadro, à luz do referencial teórico da AT, dá indicações de seu potencial como recurso pedagógico. Conhecer o conjunto de convenções criadas por Berne, algumas citadas no texto e tantas outras que constam em sua bibliografia, merecem consideração detida, em função de seu valor prático.


Paradigmas da educação
Tradicional e Comportamen-talista Humanista Cognitivista Sociocrítica Análise Transacional
Gerais O aluno é levado a ter o contato com as grandes realizações da humanidade; Ênfase nos modelos, nos especialistas e no professor; Pensamento analítico, linear e racional enfatizam as partes e não a relação entre elas; Dominação, controle, normas; Primazia do objeto; Modeladora do comportamento humano; Organiza o processo de habilidades, atitudes e conhecimentos específicos; Sujeito como o principal elaborador do conhecimento humano; Ênfase nas relações interpessoais, na vida psicológica e emocional; Autoconceito; Conteúdos advêm das experiências dos alunos; Visão sistêmica e do processo integrando, conhecimento, autonomia, criatividade, intuição, síntese e o pensamento não-linear; Enfatiza o aprender a se comunicar, questionar, observar, manter-se aberto aos novos conceitos, criar, buscar informações de forma contínua. Investigação dos processos mentais do indivíduo. Aprendizagem é mais que um produto do ambiente; Predominância interacionista; Ênfase na capacidade do indivíduo de integrar informações e processá-las. Preocupação com a cultura popular; Indivíduo sujeito de um processo cultural; Síntese de tendências como humanismo, existencialismo, marxismo; Preparação do indivíduo para o mundo adulto; Aquisição e difusão dos conteúdos concretos e contextualiza-dos;O saber a serviço da transformação das Relações de Produção. Mediante a aplicação de técnicas que podem ser utilizadas na educação, propicia a compreensão do como e do porquê as pessoas agem, pensam e sentem da maneira que o fazem.Cada pessoa é um ser original e único que utiliza os recursos da sua personalidade de forma diferenciada.
Paradigmas da educação Tradicional e Comportamen-talista Humanista Cognitivista Sociocrítica Análise Transacional
Desenvolvi-mento e integração das diversas dimensões do ser humano Nas dimensões ser/conviver: Favorecem a comunicação intergrupal e o trabalho em equipe; Desenvolvem atitudes de respeito ao posicionamento dos demais; Desenvolvem o sentimento de pertencer a um grupo; Desenvolvem atitudes de colaboração, convivência, solidariedade, justiça e democracia. (SEBRAE, 2001, p. 54) Na dimensão Aprender:   Aprendizagem significativa; Desenvolvi-mento da capacidade, processamento, ordenação e elaboração da informação; Desenvolvem as habilidades de comunicação e a capacidade crítica.(SEBRAE, 2001, p. 53) Na dimensão fazer:Facilitam a passagem da ideia para a ação; Desenvolvem o hábito de prever futuros possíveis; Propiciam aprender com a própria experiência; Desenvolvem a autodisciplina na execução das tarefas. (SEBRAE, 2001, p. 54) O conjunto de conceitos da AT aliados aos princípios dos quatro pilares favorece uma educação que conecta o educando com as diversas dimensões do ser humano, porque examina seu funcionamento integral mediante o verdadeiro contato com seu próprio mundo interior por meio de diálogo sincero e de momentos de reflexão silenciosa.A ênfase na autonomia de vida imprime o senso de responsabilidade pelas próprias ações e as consequências para si e para a sociedade onde compartilha sua vida.
Paradigmas da educação Tradicional e Comportamen-talista Humanista Cognitivista Sociocrítica Análise Transacional
Educação Modelos pré- estabelecidos; Papel de ajustamento social; Ligada à transmissão cultural; Finalidade: Promover mudanças nos indivíduos; Implica na aquisição de novos comportamentos e/ou modificação dos já existentes; Preparação para atuar numa Sociedade Industrial e Tecnológica. Centrada no indivíduo em processo de aprendizagem; Criar condições que facilitem a aprendizagem.Objetivo: Liberar a capacidade de auto-aprendizagem para o desenvolvimen-to intelectual e emocional; Valorização da busca da autonomia em oposição à heteronomia; Firmar a autodescoberta e a autodetermina-ção. Que o indivíduo aprenda por si próprio a conquistar a autonomia intelectual; Processo de socialização e democratização das relações; Deve buscar novas soluções, criar situações que exijam o máximo de exploração por parte dos indivíduos e estimular novas estratégias de compreensão da realidade. Deve ser precedida de uma reflexão sobre o homem e de sua análise do meio de vida desse homem; Dá-se enquanto processo em um contexto que deve ser considerado; Importância na passagem das formas mais primitivas de consciência para a consciência crítica. Faz uso construtivo de das formas múltiplas de conhecer. Não são somente os aspectos intelectuais e vocacionais do desenvolvimento humano que necessitam de orientação e cultivo, mas também os aspectos físico, social, moral, estético, criativo, intuitivo. Enfatiza as implicações de grande significado para a ecologia e a evolução humana e planetária.
Objetivo Pedagógico Comportamen-tais e com função do professor sobre o conteúdo ministrado. Estimular o conhecimento e o desenvolvimen-to das potencialidades individuais – cognitivas, de ser pessoa, de conviver e, principalmente, de ser criativo por meio do autoconhecimento e da capacidade de interação com o grupo. Desenvolver o pensamento superior, reflexivo e crítico, com uma atitude de investigação e de organização do conhecimento, ou seja, aprender a conhecer e a pensar. Transformar a teoria em ação, isto é, aplicação do conhecimento em uma prática refletida e planejada.Trata-se de educar para o êxito. Envolve o processo de atendimento das necessidades individuais por meio do trabalho como fator de sobrevivência, autorrealização e contribuição para a melhoria da sociedade. Equipar o indivíduo com um conjunto perceptual, conceptual, afetivo e de ação global que é utilizado para definir a si mesmo, outras pessoas e o mundo, tanto estrutural quanto dinamicamente. É um ser em constante interação.
Paradigmas da educação Tradicional e Comportamen-talista Humanista Cognitivista Sociocrítica Análise Transacional
Professor-aluno Relações verticais. Professor detém o poder decisório quanto à metodologia, conteúdo e avaliação.Professor transmissor na forma de verdade a ser absorvida. Disciplina imposta e obediência exigida.O Instrutor determina o que deve ser aprendido, planeja, prepara e repassa informações, dados, conteúdos e conhecimentos. Modela respostas apropriadas aos objetivos instrucionais. Conseguir um comportamento adequado pelo controle do ensino. Professor elo de ligação com a verdade científica. Aluno é um espectador da verdade absoluta. Professor e Aluno: responsabilizam-se pelos objetivos referentes à aprendizagem que tenha significado para o aluno. Professor reconhece a interdependência entre os processos de pensamento e a construção do conhecimento. Explora múltiplas perspectivas. Incentiva a busca de alternativas e propicia um ambiente que aproxima, une e distingue. Vê educação como um processo amplo, que lida com o ser humano de forma global. O profissional da educação também passa a ter um papel mais relevante: o de educador. Professor: cria situações para provocar desequilíbrios, trazer desafios, propiciando condições em que se possam estabelecer reciprocidade intelectual e cooperação ao mesmo tempo moral e racional. Indivíduo em processo de aprendizagem. Papel ativo. Professor deve conhecer os conteúdos e a estrutura de sua disciplina. Relação professor e aluno é horizontal e não imposta. Consciência ingênua deve ser superada.Cabe ao professor: desmistificar e questionar com o educando a cultura dominante, valorizando a linguagem e a cultura deste, criando condições para que cada um deles analise seu conteúdo e produza cultura. Relação professor e aluno baseada no empenho da transformação pessoal. O ensino é essencialmente uma vocação que requer uma mistura de sensibilidade artística e uma prática cientificamente sustentada. O professor também está aprendendo e é transformado pelo relacionamento. Sabe que o aprendizado não se pode impor. Ajuda o indivíduo a descobrir o conhecimento que tem dentro de si. Libera o “eu”, abre os olhos, torna o educando consciente da opção. Aceita e trabalha as diferenças individuais. Experiência interior encarada como contexto para o aprendizado. Recebe informações integrando-as e usando-as. Aluno estimulado a divergir, a pensar de forma crítica e independente. Compreende o significado do mundo.

Ilustração 1 – Integração dos paradigmas contemporâneos da educação com os Pilares da Educação para o século XXI e abordagens da Análise Transacional[5]

Fonte: LIBÂNEO (1984); MIZUKAMI (1986); RAYS (1990); SILVA (1986). Apontamentos realizados durante as aulas da Professora Dr.ª Marilda A. Berhens no curso de mestrado na PUCPR – 1998/2000; Apontamentos realizados durante o curso de formação em Análise Transacional 202.

Conforme se pode observar, o objetivo final da AT coincide com os objetivos da educação para o Século XXI. Um exemplo é a busca da Autonomia.

O quadro também nos fornece a possibilidade de reflexão sobre mais um conceito da AT, a saber:

Os cinco P’s – permissão, proteção, potência, prática e percepção – são atributos importantes a serem cultivados pelo professor. Agradecemos a Eric Berne por falar em Permissão (1972, p. 123-125), a Pat Crossman por escrever sobre proteção (1966, p. 152-154) e Claude Steiner por focar a potência (1971, p. 139-155) proporcionando-nos os bem conhecidos três “P’s”: Num boletim para educadores datado de 1984 (Clarke, 1984ª, p.1) escrevi: Potência, Proteção e Permissão são três qualidades de liderança inter-relacionadas. Professor que é potente demonstra competência, produz e inspira os outros a cooperarem na execução das tarefas do grupo. O professor que oferece proteção cria um ambiente no qual as pessoas se sentem livres para realizar, crescer e criar. O professor que dá permissão aos outros interage com as pessoas de tal forma que os encoraja a realizar, crescer e criar… Um professor potente é o que desenvolveu todas as três qualidades (…) e as mantém em equilíbrio. Incluí, agora, mais dois P’s. Ray Poidexter (1955, comunicação pessoal) sugeriu a prática e lhe sou agradecida por isso. Acrescentei também, percepção. Estes cinco Os empoderam tanto o professor quanto os participantes. Seguem-se algumas aplicações dos cinco Ps no meio educacional: P de percepção – permissão focada nas metas da reunião e oferecida a cada um dos participantes. O educador oferece: a) Permissão para pensar a respeito do conteúdo e do problema tratado; b) Permissão para decidir o que é conveniente, útil ou pertinente; c) Permissão para decidir usar ou não usar, adaptar o que está sendo apresentado. P de proteção – Proteção limitada no tempo e espaço. O educador oferece: a) num ambiente público – regras básicas negociadas que propiciam um ambiente de aprendizagem protegido para esta sessão específica; b) num ambiente organizacional – uma declaração transparente de que o consultor educacional, sendo alguém de fora do sistema do grupo, não pode oferecer proteção, e um lembrete para que os participantes evitem revelações e atividades que poderão ser usadas contra eles posteriormente. P de potência – uma combinação de conteúdo e processo. O educador: a)demonstra organização cognitiva apropriada: está preparado e dispõe de conteúdo em etapas compreensíveis apresentadas numa sequencia tal que faz sentido e contribui para a compreensão do todo; b) propícia materiais de apoio congruente e úteis; c) cumpre os contratos; d) tem clareza a respeito da sua área de conhecimento e não se compromete a fazer aquilo que não sabe como fazer; e) compreende a teoria da aprendizagem e analisa as estratégias de aprendizagem em função de dois ou três modelos de como as pessoas aprendem para atender as preferências e os diferentes estilos de aprendizagem dos participantes; f) compreende que existe uma grande diferença entre improvisação e esquema emergente e que este último exige muito mais preparo do que oferecer um modelo estabelecido. P de prática – a oportunidade de aprender através da experiência direta. O educador: a)Cria oportunidade de testar um novo comportamento ou explorar uma nova atitude num ambiente seguro; b) Encoraja os participantes a praticarem tanto quanto acharem necessário e de procurarem o grau de excelência que é apropriado para cada um deles. Sem a oportunidade de praticar, os ensinamentos apresentados poderão perder-se quando o participante reage à pressões ou crises ficando fora da sala de treinamento. P de percepção – observar o que realmente está acontecendo. Percepção significativa frequentemente que o educador terá que: a)Alterar as metas; b) Inventar novos processos; c) Paras de salvar; d) Parar de usar a potência para ajudar o grupo a seguir a direção errada; e) Parar de tentar ajudar e ao mesmo tempo manter o status quo. Atentar para a percepção significa, às vezes, que o educador precisa encerrar o contrato porque ele(a) não tem condições de ser eficaz ou não pode penetrar na estrutura organizacional ou, simplesmente, não dispõe de energia e entusiasmo para continuar. Em 1975, Hedges Capers disse numa conferência que nenhum terapeuta deveria chamar de um paciente de incurável. O terapeuta só poderia dizer: “Hoje eu não disponho do ferramental para ajudar o paciente a curar-se”. Hoje, mais do que nunca, os analistas transacionais que trabalham na área de educação precisam saber quando dizer “Hoje não disponho do ferramental” e/ou buscá-lo ou, então, passar o trabalho para alguém que possui as ferramentas. (CLARKE, 1998, p. 33-36, grifo nosso)

CONCLUSÃO

Ao entrar em contato com a teoria, e após experimentá-la em minha prática diária como docente, fiquei convencida de que o referencial teórico da Análise Transacional oferece múltiplos recursos que potencializam e legitimam o papel do educador e do aluno dentro da sala de aula.

Aqui fica um convite para que seja feito um exame da proposta teórica da AT na educação, integrada aos paradigmas contemporâneos da educação, que, em conjunto com os objetivos pedagógicos dos Quatro Pilares, podem contribuir para uma educação que leva à construção do homem mais integrado.


REFERÊNCIAS

BERNE, Eric. Os jogos da vida: análise transacional e o relacionamento entre pessoas. São Paulo : Nobel, 1995.

______. O que você diz depois de dizer olá? São Paulo : Nobel, 1988

CLARKE, Jean IIIsley. Utilização Sinérgica de cinco conceitos da Análise Transacional na Educação. REBAT, Ano VII, n.º 1, junho 1997. Ano VIII, n.º 1, junho 1998.

DELORS, Jacques. Educação: um tesouro a descobrir: Relatório da UNESCO da Comissão Internacional sobre a Educação para o século XXI. São Paulo : Cortez, 2000.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo : Paz e Terra, 1996.

JAMES, Muriel. JONGWARD, Dorothy. Nascido pra Vencer: Análise Transacional Com Experiências Gestalt. 9. ed. São Paulo: Brasiliense, 1983.

KRAUSZ, Rosa R. Trabalhabilidade. São Paulo : Nobel, 1999.

LIBÂNEO, José Carlos. Democratização da Escola Pública: A pedagogia crítico-social dos conteúdos. São Paulo: Loyola, 1984.

MIZUKAMI, Maria da Graça Niccoletti. As abordagens do processo. São Paulo: EPU, 1986.

RAYS, Oswaldo Alonso. Leituras para repensar a prática educativa. Porto Alegre. Sagra, 1990.

SEBRAE, Referências para uma nova práxis educacional. Série Documentos. Curitiba, 2. ed. 2001.

SILVA, Sônia Aparecida Ignácio. Valores em Educação: o problema da compreensão e da operacionalização dos valores na prática educativa. Petrópolis : Vozes, 1986.

STEINER, Claude. Os papéis que vivemos na vida. A Análise Transacional de nossas interpretações cotidianas. Rio de Janeiro : Artenova, 1976.

 

FOUR PILLARS AND THE TRANSACTIONAL ANALYSIS THEORY: A PEDAGOGICAL PROPOSAL APPLICABLE TO EDUCATION IN THE 21TH CENTURY

Abstract

The present study examines an educational proposal developed according to UNESCO guidelines, leading the student to learn to know, learn to do, learn to be and to learn to live together, which means building knowledge in an integrated form and providing a broader vision of humans on themselves, by discovering and developing new capabilities and exercising both brain hemispheres in the unification of intellect and intuition. However, building knowledge and developing capabilities is not sufficient to make better people and a better world. Procedures based exclusively on those two aspects could even generate geniuses aimed at destruction. Therefore, there is an urgent need for alternative forms to increment results in the educational process. We present here the contribution of the Transactional Analysis as a possible resource to support our educational action based on basic and universal Human Values. Transactional Analysis (TA) is a Theory of Personality with a systematic approach for personal change and growth. Acquaintance with this theory added to the principles advocated by Delors (2000)’ Four Pillars contributes to a “doing” practice in the classroom that promotes effective autonomy between teacher and student. Too presents a comparative table with topics of traditional and contemporary approaches of education and the corresponding Four Pillars with comments on Transactional Analysis as a pedagogical resource.

 Keywords: Co-responsibility. Innovation. Autonomy. Group processes. Attitudes . Values.

[1] Trabalho apresentado no EDUCERE III Congresso Nacional da Área de Educação. Em 24 a 26 de setembro de 2003. Página 72.

[2] Mestre em Educação, Administradora. Especialista em Gestão de empresas e de pessoas. Didata titulada pela SBDG. Docente universitária e consultora organizacional.

[3] Permissão aqui utilizada dentro do conceito da Análise Transacional: ”1. Uma licença para comportamento autônomo. 2. Uma intervenção que dá ao indivíduo uma licença para desobedecer a uma injunção parental se este estiver preparado, disposto e capaz, ou o libera da provocação parental. Glossário do Olá (BERNE, 1988, p. 355-356)

[4] “A necessidade de afeto, de contato físico e psicológico é uma característica da espécie humana e sua importância para o desenvolvimento biopsicossocial das pessoas já foi enfatizada pelas ciências do comportamento desde o aparecimento da psicanálise”. (KRAUSZ, 1999, p. 67)

[5] Quadro apresentado no II Fórum de Análise Transacional. Em São Paulo em 2003. Na forma de Pôster.

Quadro apresentado no V ANPED SUL – Seminário de Pesquisa em Educação da Região Sul em Curitiba 2004. Pôster

Quadro apresentado no III Fórum de Análise Transacional “Liderança Integradora”. Junho 2005. Curitiba. Mini curso.

Quadro apresentado no XX CONBRAT Congresso Brasileiro de Análise Transacional. Bento Gonçalves RS. 2005. Mini curso.

Quadro apresentado no XXI CONBRAT Congresso Brasileiro de Análise Transacional. Belo Horizonte -MG 2007. Workshop.

Quadro apresentado no XXII CONBRAT Congresso Brasileiro de Análise Transacional no Rio de Janeiro-RJ em 2009. Pôster.

Quadro apresentado no Fórum de Análise Transacional em Porto Alegre. Outubro de 2010. Palestra.