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PROCESSO ANDRAGÓGICO NA CAPACITAÇÃO DOCENTE NO AMBIENTE CORPORATIVO

agosto 1, 2014 by Artigos No Comments

PROCESSO ANDRAGÓGICO NA CAPACITAÇÃO DOCENTE NO AMBIENTE CORPORATIVO: RELATO DE UMA EXPERIÊNCIA[1]

Carmem Maria Sant´Anna Rossetti[2]

Resumo

O presente trabalho visa relatar experiência vivida em programas de capacitação docente dentro da estratégia metodológica da Andragogia – educação de adultos – em uma instituição de ensino. 436 professores da instituição passaram por um programa de quatro horas visando familiarizá-los com os pressupostos da Andragogia. Desses, vinte e seis professores foram indicados pela instituição como multiplicadores recebendo um aprofundamento de mais dezesseis horas de treinamento capacitando-os a darem suporte aos demais professores na utilização da metodologia. O programa visou contribuir para a solução do problema enfrentado pelos professores ao se depararem com o ingresso crescente de alunos adultos e os desafios de abordagem ao trabalharem com eles. As demandas apresentadas em sala de aula, na percepção da alta direção, davam sinais de que era preciso um olhar diferenciado para estes alunos, revelando a necessidade de compreensão da lógica de aprendizagem deste público adulto exigindo novos saberes por parte dos professores. O problema se agravou quando se constatou um número crescente de evasão de alunos. O programa de capacitação docente foi desenvolvido em 2010 e aplicado em 2011. Por depoimentos dos professores e pela direção da instituição há informações de que o clima das aulas mudou para mais interativo – Os alunos mostraram-se mais interessados e os professores se declaram mais confiantes. Em 2011 estão sendo colhidos dados quantitativos para medir o nível de evasão de alunos após a capacitação dos professores.

Palavras-chave: Andragogia. Análise Transacional. Aprendizagem de adultos.

 

Introdução

O ambiente corporativo tem se tornado um dos principais palcos para o desenvolvimento pessoal e profissional de adultos. Este cenário nos leva a refletir sobre qual é a maneira mais eficiente de se promover a educação de adultos nas organizações. Os profissionais que trabalham na área de desenvolvimento de pessoas são desafiados a buscar alternativas, aliando teoria e prática sem perder o foco nas tendências tecnológicas e, sobretudo no que realmente motiva as pessoas a se desenvolverem. A experiência da autora tem demonstrado que os programas educacionais que não levam em conta os princípios e processos que contemplem a forma como os adultos aprendem tem dificuldades de cumprir seu objetivo de disponibilizar recursos e ambiente que promovam uma aprendizagem efetiva para atender à crescente demanda de novas modalidades de trabalho e aprimoramento profissional.

Esta realidade está retratada nos dados fornecidos pelo Sindicato do Mercosul (2004):

Adultos que não concluíram o ensino fundamental ou médio estão voltando para a escola. Levantamento realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), do Ministério da Educação, mostra que aumentou em 42% a matrícula de alunos com 25 anos de idade ou mais no período de 1999 a 2003. […] Em 1999 havia no país 2,6 milhões de alunos de ensino fundamental e médio com 25 anos ou mais de idade. Em 2003, esse número saltou para 3,7 milhões. Foram consideradas as matrículas tanto na rede regular de ensino quanto nas classes de jovens e adultos. Segundo o Inep, o aumento do número de adultos voltando à escola reflete uma exigência do mercado de trabalho. Sem escolaridade suficiente para conseguir um emprego ou progredir na carreira, um contingente cada vez maior de adultos decide retomar os estudos. O ensino médio tinha 705 mil alunos com mais de 25 anos. Dos 34 milhões de alunos na rede pública e privada de ensino fundamental, em 2003, 664 mil (1,9%) tinham 25 anos ou mais, sendo 414 mil na faixa acima de 29 anos. Alunos matriculados na idade apropriada — aos 7 anos, na 1ª série — devem concluir a 8ª série aos 14 anos, caso não sejam reprovados nem abandonem os estudos. No ensino médio, que deve ser concluído aos 17 anos, no ano passado havia 705 mil alunos matriculados acima de 25 anos. De acordo com o Censo Escolar, eram 359 mil alunos com 29 anos ou mais.

Os dados acima justificam um movimento que força o reconhecimento do valor e da importância de se continuar a investigar o processo de ensino e aprendizagem do adulto e leva a indagações importantes: Considerando que os dados referenciados são de 1999, qual seria a realidade em 2011?

Como o aprendizado no ambiente corporativo vem sendo estudado e aplicado na atualidade? Qual o papel do profissional responsável pela área de desenvolvimento de pessoas na definição de metodologias de aprendizado mais eficientes para a organização? Quais teorias de aprendizagem estão sendo adotadas por consultores, programas padronizados e outros recursos externos disponíveis? Que diferença a orientação teórica deles poderia fazer em ações educativas dentro da organização? (KNOWLES, 2009, p. 1-2)

Desde 1926 ideias começaram a ser sistematizadas sobre as particularidades da aprendizagem do adulto. Malcolm S. Knowles, nos Estados Unidos divulgou a andragogia – a arte e a ciência de orientar o adulto a aprender – como mais uma via da educação trazendo uma grande mudança apresentada por meio de um processo de aprendizado concentrado no participante e não mais no conteúdo. Isso significa considerar as necessidades e experiências individuais na construção dos objetivos de cada programa, envolvendo todos e visando a consolidação dos temas aprendidos.

Segundo Knowles (2009, p. 121-122)

O modelo andragógico é um modelo processual, em oposição aos modelos baseados em conteúdo […] O professor andragógico (facilitador, consultor, agende de mudança) prepara antecipadamente um conjunto de procedimentos para envolver os seguintes elementos: 1) preparar o aprendiz; 2) estabelecer um clima que leva à aprendizagem; 3) criar um mecanismo para o planejamento mútuo; 4) diagnosticar as necessidades para a aprendizagem; 5) formular os objetivos do programa (o conteúdo) que irão atender a essas necessidades; 6) desenhar um padrão para as experiências de aprendizagem; 7) conduzir essas experiências de aprendizagem com técnicas e materiais adequados; e 8) avaliar os resultados da aprendizagem e fazer um novo diagnóstico das necessidades de aprendizagem. Esse é um modelo de processo. A diferença não é que um deles trata de conteúdos e o outro não; a diferença é que o modelo de conteúdo se ocupa de transmitir informações e habilidade enquanto o modelo de processo se ocupa da provisão de procedimentos e recursos para ajudar os aprendizes a adquirir informações e habilidade.

Os procedimentos acima descritos fazem da Andragogia um processo de ensino aprendizagem sustentado em concepções de comunicação clara e efetiva, através de um alto nível de consciência e compromisso compartilhado entre professor e aluno. Quando o professor facilita a aprendizagem no sentido de adquirir ‘informações e habilidades’ o habilita a criar repertório de continuidade para prosseguir em sua aprendizagem, pois o ambiente muda e ele precisará aprender continuamente desenvolvendo a capacidade de pensar e fazer conexões com o que sabe com o que aprende sempre. Vale considerar o pensamento de Rogers (apud KNOWLES, 2009, p. 90) explicando sua visão referente ao “ensino”:

O ensino e a transmissão de conhecimento fazem sentido em um ambiente que não muda, e isso explica porque essa função permanece há séculos sem ser questionada. Mas, se há uma única verdade sobre o homem moderno, é que ele vive em um ambiente que está sempre mudando” e, portanto, o objetivo da educação deve ser facilitar a aprendizagem. Ele define o papel do professor como o de alguém que facilita a aprendizagem. O elemento crítico para desempenhar esse papel é o relacionamento pessoal entre facilitador e o aprendiz, os quais, por sua vez, dependem de o facilitador possuir três qualidades atitudinais: (1) ser real e genuíno; (2) exibir cuidado não-possessivo, estima, confiança e respeito; e (3) ter compreensão com empatia, ser sensível e um bom ouvinte.

O ponto de partida apropriado e as estratégias para a aplicação do modelo andragógico dependem da situação. As diferenças individuais e situacionais modificam os objetivos e propósitos para a aprendizagem. O facilitador é aquele que faz a mediação das relações educativas, e, desta forma, pode transformar a realidade escolar e/ou social.

Nesta perspectiva, Freire (1996, p. 25) destaca que “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção”, e nas condições de verdadeira aprendizagem os educandos vão se transformando em reais sujeitos da construção e da reconstrução do saber ensinado, ao lado do educador, igualmente sujeito do processo.

O FAZER ANDRAGÓGICO À LUZ DA ANÁLISE TRANSACIONAL

A Análise Transacional (AT) é uma teoria da personalidade criada pelo Dr. Eric Berne no final da década de 50. É também uma filosofia de vida, uma teoria da psicologia individual e social. Possui um conjunto de técnicas de mudança positiva que possibilita uma tomada de posição quanto ao ser humano.

Atualmente, a AT tem evoluído e se desenvolvido através das diversas contribuições teóricas e práticas de muitos autores seguidores de Berne e conta também com uma difusão e aplicação em nível mundial.

O termo ‘transacional’ deveu-se ao interesse que Berne tinha pelo que ocorria entre as pessoas. Daí o estudo, a análise, as trocas de estímulos e as respostas (transações) entre os indivíduos serem a ênfase dada por Berne ao iniciar as suas pesquisas e observações que culminaram na criação da Análise Transacional (AT). Além de ter se ocupado primordialmente com o que ocorre entre os indivíduos, Berne contribuiu ainda com excelente modelo de estudo do que ocorre no interior do indivíduo.

AT é uma filosofia positiva e de confiança no ser humano. Segundo Steiner (1976, p.15), Berne incorporou neste aforismo[3]: “As pessoas nascem príncipes e princesas, até suas circunstâncias transformem-nas em sapos” a convicção de que as pessoas quando nascem são, por natureza, OK. Todos nós nascemos bem, com capacidade plena para obter sucesso e satisfação de nossas necessidades.

Ao conhecer e aplicar os conceitos da AT, o facilitador tem opções para criar um ambiente que permite o adulto participar ativamente do seu processo de desenvolvimento mediante a compreensão e escolha consciente de mudança de fatores pessoais, emocionais e de conduta numa relação de paridade, denominado na Análise Transacional de relação OK/OK. [4]

Ao examinar as suposições básicas sobre os adultos aprendizes identificados por Lindeman entendeu-se que as bases da teoria da Análise Transacional (AT) dão suporte para o ‘fazer’ andragógico. Abaixo está a transcrição das cinco suposições de Lindeman (1926, apud KNOWLES, 2009, p. 44) que compõem os fundamentos da teoria de aprendizagem de adultos.

1) Os adultos são motivados a aprender conforme vivenciam necessidades e interesses que a aprendizagem satisfará; portanto, esses são os pontos de partida para organizar as atividades de aprendizagem dos adultos. 2) A orientação da aprendizagem dos adultos é centrada na vida; portanto, as unidades adequadas para organizar aprendizagem de adultos são situações da vida, não assuntos. 3) A experiência é o recurso mais rico para a aprendizagem dos adultos; portanto,a metodologia central da educação de adultos é a análise de experiências. 4) Os adultos têm uma forte necessidade de se autodirigir; portanto, o papel do professor é de se envolver em um processo de questionamento mútuo com eles, em vez de transmitir seu conhecimento a eles e, a seguir, avaliar seu grau de conformidade com o que foi transmitido. 5) As diferenças individuais entre as pessoas aumentam com a idade; portanto, a educação de adultos deve prever as diferenças de estilo, tempo, lugar e ritmo de aprendizagem.

Para justificar a opção pela aplicação neste projeto da teoria da Análise Transacional consideramos a primeira e a quarta suposição acima descritas comparando com alguns conceitos da AT.

Na primeira suposição de Lindeman (1926, apud KNOWLES, 2009, p. 44): “Os adultos são motivados a aprender conforme vivenciam necessidades e interesses que a aprendizagem satisfará”, a teoria da Análise Transacional foi essencial para trabalhar os conceitos de autonomia. O objetivo final da AT coincide com os objetivos da educação para adultos, a Andragogia. Um exemplo é a busca da Autonomia, que é manifestada pela liberação ou pela recuperação de três capacidades: Consciência, Espontaneidade e Intimidade (autenticidade/transparência).

Consciência é a capacidade de viver de uma maneira própria, e não do modo como se foi obrigado. […] A pessoa consciente está viva porque sabe o que sente, onde está e o momento que vive. […] Espontaneidade: Significa a opção, liberdade de escolher e de exprimir sentimentos existentes na coleção que cada indivíduo tem disponível (sentimentos do Pai, do Adulto e da Criança). Significa estar liberto da compulsão de ter apenas sentimentos que se aprendeu a ter. […] Intimidade: é a sinceridade sem jogos de uma pessoa consciente, a liberdade da Criança perceptiva e incorrupta em toda a sua ingenuidade vivendo no aqui e agora. (BERNE, 1988, p. 155-157, grifo nosso).

Passemos agora a analisar a quarta suposição de Lindeman (1926, apud KNOWLES, 2009, p. 44) à luz de conceitos da AT – O auto conceito do aprendiz.

Os adultos têm uma forte necessidade de se autodirigir; portanto, o papel do professor é de se envolver em um processo de questionamento mútuo com eles, em vez de transmitir seu conhecimento a eles e, a seguir, avaliar seu grau de conformidade com o que foi transmitido.

Os adultos possuem um conceito elevado de si mesmos pelas responsabilidades que assumem nas diversas decisões em suas vidas. Sendo assim, desenvolvem uma forte necessidade de serem vistos e tratados como capazes. Resistem quando percebem que as vontades de outros lhes são impostas. Contudo, quando se deparam com uma atividade educacional ou de treinamento regridem ao condicionamento de suas experiências escolares anteriores que muitas vezes exigiu dele uma postura de dependência, que, na Análise Transacional seria uma postura -/+. Ou seja, sentimento “eu sou menos e você é mais”. Por esta crença limitante entram numa crise paradoxal: “Como aliar minha condição de adulto e ao mesmo tempo ser aprendiz?” Baseado nesta premissa, os aprendizes adultos chegam à atividade educacional investido de uma postura passiva. Esperam inconscientemente que neste processo o “professor” fará o papel de “ensinar” sem que nada da parte dele como aluno seja esperado. É como se ele cruzasse os braços e dissesse: “ensina-me”.

O conhecimento dos conceitos da Análise Transacional pode contribuir para que os professores compreendam esta necessidade psicológica do aprendiz adulto, tratando-o como adulto.

Por uma postura adequada do ponto de vista da Andragogia e da Análise Transacional terá alta probabilidade de não confirmar a suposição de menos valor e dependência do aluno. Então já no início das suas relações com os alunos o facilitador demonstrará pela sua postura que o considera um parceiro no processo de ensino aprendizagem. Os conceitos de Estado de Ego[5], Transações[6] e Posições Existenciais[7] foram fundamentais para que os professores compreendessem esta dinâmica das relações com seus alunos.

Ainda para atender à necessidade de firmar a autoimagem e auto-direção do aluno adulto, foi apresentado e vivenciado com os professores o conceito defendido por Knowles (2009, p. 287- 288) de ‘contrato de aprendizagem’:

Oferecem um meio para negociar a reconciliação entre necessidades e expectativas externas e necessidades e interesses internos do aprendiz. […] Os contratos de aprendizagem oferecem um veículo para tornar o planejamento das experiências de aprendizagem um compromisso recíproco entre o aprendiz e seu ajudante, mentor, professor e, muitas vezes, seus colegas. Ao participar do processo de diagnóstico de suas necessidades, formulando objetivos pessoais, identificando recursos, escolhendo estratégias e avaliando realizações, o aprendiz desenvolve um sentimento de propriedade do (e compromisso com o) plano.

No contexto educacional, estabelecer um contrato determina um bom começo na relação professor-aluno.

O objetivo do contrato/combinado/acordo é colaborar com os alunos para que assumam uma maneira de ser/estar, de tal forma que sejam capazes de se relacionarem com consciência, espontaneidade e confiança.

Para ser gerado um contrato que satisfaça às exigências do consentimento mútuo, é necessário que ambas as partes sejam capazes de especificar aquilo que estão consentindo. Se o aluno for apoiado a descobrir por si mesmo qual o seu gap e tomar consciência de sua necessidade de aprender, terá condições de preencher uma das primeiras lacunas do contrato de aprendizagem que é o objetivo de aprendizagem. Isto facilita estabelecer o que se espera de cada um para que a aprendizagem aconteça. O aluno torna-se sujeito de sua aprendizagem. Ele é levado a compreender que ninguém ensina ninguém. O aluno é o dono da ação de aprender.

O contrato deve se basear numa compensação válida. Uma compensação válida refere-se aos benefícios conferidos aos envolvidos. O benefício conferido pelo professor deve ser sempre uma tentativa competente de ajudar a resolver a situação de aprendizagem em questão. Tendo em conta que o aluno e o professor conhecem e especificam uma situação de aprendizagem em termos observáveis e comportamentais, quando ambos, concordarem que o problema descrito não se encontra mais presente, ambos terão levado sua compensação.

O contrato precisa contemplar a competência. As pessoas envolvidas são capazes e competentes para realizar o que combinam. É realizado com o ser humano entendido como Adulto e capaz.

O FAZER ANDRAGÓGICO À LUZ DOS ESTILOS DE APRENDIZAGEM DE KOLB

Para ampliar a compreensão dos professores foram apresentados e vivenciados os conceitos andragógicos de ciclo e estilos de aprendizagem de Kolb (apud KNOWLES, 2009, p.213): Citar Kolb diretamente

Não é tanto a aquisição ou a transmissão de conteúdos, e sim a interação entre conteúdo e experiência, em que um transforma o outro. O trabalho do educador, ele afirma, não é apenas transmitir ou implantar novas idéias, mas também modificar idéias antigas que possam interferir com as novas.

A partir do modelo ‘pesquisa-ação’ utilizado em programas de desenvolvimento organizacional, Kolb (KNOWLES, 2009, p. 213-214) baseia o modelo de aprendizagem experiencial que por sua vez é bastante semelhante aos de Dewey e Piaget. Os quatro passos de seu modelo oferecem dicas importantes e de valor inestimável para o desenho de experiências de aprendizagem para adultos.

Existem quatro passos para o ciclo de aprendizagem experiencial: 1)Experiência concreta. Envolvimento total em experiências novas no aqui e agora. 2) Observação e reflexão. Reflexão e observação da experiência dos aprendizes a partir de várias perspectivas. 3) Formação de conceitos abstratos e generalização. Criação de conceitos que integram as observações dos aprendizes em teorias lógicas. 4) Teste das implicações de novos conceitos a novas situações. Uso dessas teorias para tomar decisões e solucionar problemas. Citação

Ao preencher o ‘Inventário de Estilos de Aprendizagem IEA’, de Kolb (1978) – que foi projetado para identificar o método de aprendizagem e tem seu objetivo de descrever como o aprendiz aprende e não avaliar a habilidade de aprendizagem – cada participante pode identificar e vivenciar seu estilo de aprendizagem e compreender o processo de aprendizagem e suas diferenças considerando que segundo o autor, todo conhecimento resulta da interação entre teoria (conceitos abstratos) e experiência. O IEA é baseado neste conceito de educação experiencial e define o processo de aprendizagem.

Para o facilitador, havendo a clareza das diferenças dos estilos de aprendizagens, ele pode usar esta informação como ferramenta importante para fazer seu plano de aula. Leva em conta que em sua turma certamente terá alunos dos diversos estilos, entende a lógica de pensamento de cada estilo e aplica estímulos e estratégias de aprendizagem que atenda esta necessidade. No Quadro 1 há dicas fornecidas por Kolb.

Estágio de Kolb Exemplo de estratégia de aprendizagem/ensino
Experiência concreta Simulação, estudo de caso, excursão, experiência real, demonstrações.
Observação e reflexão Discussão, pequenos grupos, buzz groups, observadores escolhidos.
Conceitos abstratos Compartilhamento de conteúdos.
Experimentação ativa Experiências em laboratório, experiência on the job, estágios, sessões práticas.

Quadro 1 – Modelo de estratégias de aprendizagem

Fonte: Kolb apud KNOWLES 2009, p. 214.

Durante o programa foi aplicado o inventário de estilos de aprendizagem para que os professores identificassem seus estilos e vivenciassem uma atividade onde pudessem evidenciar o impacto das diferenças de estilos de aprendizagem. A partir das experiências puderam fazer a reflexão sobre suas estratégias em sala de aula para contemplar os quatro estilos dentro do ciclo de aprendizagem dos alunos no dia a dia.

Vale lembrar que as abordagens de Kolb, Dewey e Rogers enfatizam a experiência como fator contribuinte para o processo de aprendizagem conforme foi explicitado na terceira suposição de Lindeman (apud KNOWLES, 2009, p. 44): “A experiência é o recurso mais rico para a aprendizagem dos adultos; portanto, a metodologia central da educação de adultos é a análise de experiências”.

APLICAÇÃO DO PROGRAMA

A experiência aqui relatada trata de um programa destinado ao corpo docente de uma Instituição de Ensino Superior. Foi utilizada uma carga horária de 96 horas. O público alvo foi 436 professores organizado em grupos de 30 participantes por turma. O programa foi desenhado conforme a demanda da alta direção com o intuito de difundir junto ao corpo docente a aplicabilidade dos conceitos da andragogia na prática e no manejo em sala de aula com alunos adultos. Referido programa teve início em 2010 e está em observação durante o ano de 2011.

Todos os conceitos foram trabalhados dentro da metodologia andragógica: experimentação, reflexão, conceitualização e conexão avaliando o impacto de cada descoberta do método na sua prática.

Foi utilizado como referencial teórico os escritos de Malcom Knowles, Eduard Lindeman, John Dewey, David Kolb. Este relato é o resultado que tal programa obteve por terem sido incluídos os conceitos da Análise Transacional de Eric Berne. O impacto nos professores ao se darem conta das necessidades psicológicas dos alunos adultos no seu papel de aprendiz ajudou-os a aquilatar como o professor, mediante sua postura pode reforçar ou dissipar crenças limitantes dos seus alunos.

No relato desta experiência pretende-se apresentar alguns dados extraídos das avaliações de reação colhidos no final de cada encontro e os depoimentos dos professores após entrarem em contato com os conceitos da Análise Transacional conjugados aosconceitos da Andragogia, contratos, ciclo de aprendizagem e estilos de aprendizagem de Kolb e ao se experimentarem utilizando os conhecimentos adquiridos mediante role plays. Nas tabelas 1 e 2 são apresentados alguns dados com a posterior análise.

Tabela 1 – Que aspectos discutidos neste workshop você se sente a vontade para aplicar no seu dia a dia?

Conteúdo Nº de respostas %
Contrato de aprendizagem 231 52,98%
Estilos de aprendizagem 114 26,15%
Análise Transacional (EE e Transações) 45 10,32%
Princípios de Andragogia 17 3,90%
Não responderam 29 6,65%
Total de Respondentes 436 100,00%

Fonte: Dados organizados pela autora

Na tabela 1 é notável o índice de 52,98% de respondentes que se identificaram com a ferramenta “Contrato” parecendo sentirem-se à vontade para aplicar no seu dia a dia. Esta ferramenta se experimentada por mais professores tem grande probabilidade de prevenir situações de indisciplina tão faladas durante todos os workshops. Os professores demonstram entender que ao alinharem as expectativas dos alunos podem prevenir expectativas irrealistas deles e chamar o aluno para o seu status de ser humano adulto capaz de compreender seus objetivos ao procurarem a Instituição. Quanto aos estilos de aprendizagem 26,15% dos professores manifestam-se capazes de utilizar no manejo de sala. Estes professores terão este recurso a seu benefício na hora de organizar e apresentar suas aulas. Ao conhecer o processo de aprendizagem de seus alunos podem mediante a observação ativa dos comportamentos dos alunos acompanharem mais de perto os que apresentam dificuldades no seu processo de aprendizagem. 10,32% dos professores afirmam que se sentem habilitados a utilizar os conceitos da Teoria da Análise Transacional poderão obter maior sucesso no seu processo de comunicação com os alunos produzindo relações saudáveis livres de jogos[8]em sala de aula. 3,90% dos professores responderam que entendem a importância de conhecer os princípios da andragogia no seu dia a dia. Chamou a atenção este índice, e indagamos aos professores se podiam falar mais sobre suas respostas. Os que não apontaram este item nos disseram que o tempo do Workshop foi muito curto para assimilarem os princípios da andragogia como desejavam. Perceberam estes princípios estavam presentes nos assuntos sobre contrato, estilos de aprendizagem e AT, mas carecem de maior aprofundamento para poderem explicar e aplicar. Levam como conhecimento adquirido e precisam estudar mais o tema. 6,65% dos participantes não responderem.

Na tabela 2 fica evidenciado o interesse dos respondentes pelas atividades práticas representado pelas respostas de 26,38% indicando os role plays. Esta prática é bem indicada para o desenvolvimento do facilitador porque ele tem a oportunidade de simular uma situação que está tendo dificuldade ou pretende aprimorar. Ao se experimentar em ambiente seguro de laboratório, pode dar-se conta de como se saiu. Aproveita o momento de feedback para refletir sobre a ação experimentada, identificar o que descobriu sobre si mesmo no papel de facilitador. Se desejar pode se experimentar de novo e a partir dos feedbacks refletir sobre o que pode dar certo, identificar como se sentiu e fazer opções para corrigir o que desejar.

25,22% apontam a necessidade de saber mais sobre os estilos de aprendizagem. Os conceitos de Análise Transacional representado pelas respostas de 18,58%. Os princípios da Andragogia foram apontados 12,61%. 8,27% desejam mais oportunidades de experiências do “como fazer” andragógico em sala de aula. 6.65% não responderam.

A instituição tem aqui praticamente o desenho para montar seus próximos programas de desenvolvimento para este professores que seguindo o modelo andragógico, por si mesmos identificaram sua necessidade de saber.

Tabela 2 – Que questões você gostaria que fossem aprofundadas em outro momento?

Conteúdo Nº de respostas %
Atividades de role play 115 26,38%
Estilos de aprendizagem 110 25,23%
Análise Transacional 81 18,58%
Princípios da Andragogia 55 12,61%
Como fazer 36 8,26%
Não responderam 29 6,65%
Contrato de aprendizagem 10 2,29%
Total de Respostas 436 100,00%

Fonte: Dados organizados pela autora

Abaixo estão transcritos alguns depoimentos de professores que fizeram parte do programa de desenvolvimento, aqui selecionados os depoimentos que enfatizaram a AT:

“A Abordagem da comunicação, baseado em tema transacional, que ajudará os diálogos, questões polêmicas, abordagens situações “delicadas” e saias justas, baseadas na compreensão dos estados de ego”. [sic]

“Possibilidades infinitas de comunicação, melhorar o meu desempenho como instrutor e sobre tudo minha evolução como homem dentro da sociedade.” [sic]

“Com o conhecimento da análise transacional posso tentar identificar os estados de ego existentes, como receber informação de cada um deles, como responder aos estímulos e qual o melhor estímulo para dar esta resposta.” [sic]

“Excelente forma de estudo onde podemos verificar os comportamentos humanos em suas diversas formas.” [sic]

“È muito interessante verificar como o ser humano pode flutuar em seus diversos “eus” e, sobretudo identificar com qual “eu” estamos lidando fica mais fácil e gratificante trabalhar com o treinando sem termos que nos colocar em situações vexatória ou de humilhação, tanto para o instrutor como para o treinando.” [sic]

“Gostei demais de ter tido este conhecimento, que com certeza enriquecerá os meus treinamentos, aulas, palestras, etc..” [sic]

“Ao identificarmos como estamos nos comunicando conseguimos de forma madura manter uma comunicação efetiva.” [sic]

“Buscando uma interação positiva com auto-análise e um repertório de conhecimentos das estruturas e funções do ser humano através da Análise Transacional.” [sic]

CONCLUSÃO

O presente relato conta o inicio de uma jornada estimulante de professores que tiveram seu primeiro contato com o modelo andragógico.

Trata-se de uma experiência com carga horária mínima, com o objetivo inicial de sensibilizar estes professores para uma abordagem diferenciada visando atender as especificidades de aprendizagem do adulto. A curiosidade foi aguçada e muitas perguntas foram levantadas.

Foi demonstrado que as modificações que este modelo requer em relação à pedagogia moderna não são grandes; pequenos ajustes no ambiente tradicional que permita diminuir a diferenciação de status entre professor aluno já cria uma clima andragógico de proximidade e interação. As alterações no nível psicológico e relacional são evidentemente mais importantes e profundas.

Não é tão simples o professor abandonar sua postura de tantos anos em favor de uma nova.

É grande a tentação de, por vezes, procurar ensinar; mas se o professor tiver interesse pessoal por seus alunos, se ajustar o seu olhar para o aprendente adulto no sentido de: acolher as diferenças; reconhecer o adulto como capaz de aprender; estiver aberto à discussão e debate de idéias; fornecer-lhes mais opções de escolha de ação; ouvi-los ativamente está lançada a pedra fundamental do facilitador de aprendizagens.

Esta experiência não é conclusiva. Estamos aguardando até o final do ano de 2011 para conhecer os efetivos resultados da coleta de dados quantitativos referente ao indicador “evasão de alunos”. E se o resultado poderá ser contado como parte do fruto da capacitação do corpo docente no modelo andragógico para atender seu público adulto.

De qualquer forma este trabalho dá ensejo para que se continue a trabalhar no sentido de entender e aplicar metodologias específicas para público especifico nos programas de desenvolvimento de pessoas no ambiente corporativo e quem sabe no ambiente universitário..

 

REFERÊNCIAS

Adultos voltam à escola para lutar por emprego. In: Sindicato Mercosul, 2004. Disponível em: <www.sindicatomercosul.com.br/noticia02.asp?noticia=15556>. Acesso em: 30 de ago. 2011.

BERNE, Eric. Os jogos da vida: A psicologia transacional e o relacionamento entre as pessoas. Rio de Janeiro: Artenova, 1974.

_______. O que você diz depois de dizer Olá? São Paulo: Nobel, 1988.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 45. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 2007.

KNOWLES, Malcolm S. Aprendizagem de resultados: uma abordagem prática para aumentar a efetividade da educação corporativa. Rio de Janeiro : Campus, 2009.

KOLB, David Allen. Psicologia organizacional: uma abordagem vivencial. São Paulo : Atlas, 1978.

STEINER, Claude. Os papéis que vivemos na vida. Rio de Janeiro : Artenova, 1976.

ANDRAGOGICAL PROCESS OF TEACHER QUALIFICATION IN THE CORPORATE ENVIRONMENT: REPORT OF AN EXPERIENCE

Abstract

The present study aims at reporting an experience with teacher qualification programs according to the methodological strategy of Andragogy – adult education – at a teaching institution. Four hundred thirty-six teachers of the institution participated in a four-hour program of familiarization with Andragogy premises. Twenty six teachers were appointed as multipliers by the institution, and received an extra training of over sixteen hours to support other teachers with methodology use. The program aimed at contributing to solve the problem faced by teachers when handling a growing number of adult students at school and the challenges of approaching a work with them. Demands emerged in the classroom, and the principal perceived the need of a different look at those students, understanding the learning logic of the adult audience, which requires further teaching knowledge. The problem became more difficult when the growing number of dropouts was revealed. The teacher qualification program was developed in 2010 and applied in 2011. According to testimonials from teachers and the institution management, there is information accounting for a more interactive environment – students became more interested and teachers felt more confident. In 2011, quantitative data were collected to measure the level of student evasion after teachers’ qualification.

 

Keywords: Andragogy. Transactional Analysis. Adult learning.

[1] Trabalho apresentado no XII CONPARH Congresso Paranaense de Recursos Humanos. Congresso Unindus de Educação Corporativa 2011. Proposta de trabalho: Casos práticos. Modalidade: Apresentação de trabalhos científicos. Consta dos anais do referido congresso em 24 a 26 de setembro de 2011.

[2]Mestre em Educação. Administradora, especialista em Gestão de empresas e Gestão de pessoas, incluindo módulo internacional na Universidade do Texas USA. Didata em Dinâmica dos Grupos pela SBDG. Membro Certifica em Análise Transacional Organizacional pela UNAT-BRASIL. Associada a SBGC Sociedade Brasileira de Gestão do Conhecimento. Coach Executiva Empresarial credenciada pela ICI e pela ABRACEM. Associação Brasileira de Coaching Empresarial.

[3] Aforismo segundo Houaiss: 1 máxima ou sentença que, em poucas palavras, explicita regra ou princípio de alcance moral. 1.1 texto curto e sucinto, fundamento de um estilo fragmentário e assistemático na escrita filosófica. Geral. Relacionado a uma reflexão de natureza prática ou moral.

[4] Posição OK/OK Característica daqueles que respeitam a si próprios e aos outros, que têm capacidade de reconhecer suas qualidades e limitações, que tem uma visão realista da vida, capacidade de aprender com os seus erros e equacionar seus próprios problemas.(…) Propõem-se metas alcançáveis na vida e as alcançam, sem que para isso tenham que prejudicar alguém. (Krausz 1999, p.84)

[5] “São sub-sistemas coerentes de sentimentos e pensamentos manifestados por padrões de comportamentos correspondentes. Cada ser humano apresente três tipos de ego. Pai, Adulto,Criança” Estado de Ego, segundo Berne é: “Unidade básica da personalidade”. (BERNE, 1988, p.25).

[6] Berne chamou de transações a capacidade humana da comunicação, ou seja:Desenvolver a capacidade de solucionar conflitos, sem criar outros. Analisar e compreender relacionamentos. Conviver de forma harmoniosa no grupo, negociando acordos. Resolver dificuldades de relacionamento exercitando o reconhecimento. Desenvolver a comunicação assertiva e habilidosa. Exercitar a aceitação, promovendo um relacionamento amistoso com as pessoas. “É a unidade da ação social” (BERNE, 1988, p.32)

[7] É a forma como percebemos a nós mesmos em relação às outras pessoas. Ou ainda, são juízos de valor ou conceito de si mesmo e dos demais, adquiridos na infância, através de tomadas de decisões, muitas vezes imaturas e irreais, uma vez que são baseadas nas condições precárias de criança para raciocinar e pensar objetivamente diante de realidade. Existem quatro Posições Existenciais básicas, organizando-as na seqüência descrita a seguir: (1) Eu estou OK ou (2) Eu não estou OK (3) Você está OK ou (4) Você não está OK. (BERNE,1988, p. 81-83)

[8] Jogos segundo a teoria da Análise Transacional é “conjunto repetido de transações, não raro enfadonhas, embora plausíveis e com uma motivação oculta. Para definir de maneira mais simples, jogos são constituídos por uma séria de lances com uma cilada ou “truque” no meio ou no fim.”. (BERNE, 1974 p. 49)